Tuesday, September 17, 2013

Procura-se país simpático e competitivo para futuros investimentos

Atracção de investimento! – eis o anseio repetido até à exaustão, por qualquer responsável político, desde um ministro da economia ao presidente de uma pequena autarquia (especialmente, nestes exigentes tempos de eleições). Um desejo legítimo, uma vez que é dos investimentos, especialmente dos de grande dimensão, que surgem os meios para criar empregos, reproduzir riqueza e financiar os serviços públicos que usufruímos. Mas, questiono-me, será que todos teremos a real noção das condições estruturantes para tornar um país ou uma região apelativos para atrair os tão ansiados investimentos? Esta não é, seguramente, uma ciência oculta! Na semana passada, foi apresentado pelo Fórum Económico Mundial o ranking global de Competitividade. Numa lista de 148 países estudados, Portugal surge em 51.º lugar, baixando duas posições em relação ao ano anterior. Ao contrário do que alguns pensarão, esta classificação não se resume a meros indicadores “economicistas”. A competitividade é aqui estudada num conjunto de áreas: as instituições e seu funcionamento, o nível de regulação, as infra-estruturas, a educação, nível de ensino superior e formação, os mercados de trabalho, a fiscalidade, a inovação e a tecnologia, entre outras que, objectivamente, tornam alguns países mais atractivos e apelativos que outros. Não valerá a pena entrar em detalhe, mas talvez perceber como somos avaliados globalmente e como podemos desenvolver, com mais rapidez e eficácia, os nossos esforços de melhoria. O diagnóstico é claro, similar aos últimos anos: a economia portuguesa continua a ter maus desempenhos nos mesmos indicadores (clima macroeconómico, desenvolvimento dos mercados financeiros ou a eficiência do mercado laboral) e a destacar-se positivamente em áreas em que apostámos fortemente nas últimas duas décadas (inovação, aptidão tecnológica, educação superior e formação). Aparentemente, também estamos bem colocados em segurança, nas infra-estruturas, no acesso a tecnologias e na saúde – e de destacar a rede de estradas que, pelos vistos, é a 4ª melhor do mundo. Então onde devemos actuar? Também aqui, o relatório é claro: nos mercados que permitem o acesso ao financiamento (ex. crédito às empresas), na redução da burocracia e da carga fiscal, na construção de consensos nacionais que mitiguem a instabilidade política ou na revisão das leis laborais, de modo a que facilitem a contratação. E na fiscalidade, claro, onde a reforma do IRC, em fase final de definição, terá um papel importante como factor de atractividade. Em suma, se pensarmos de modo global, olhando para o mundo como o nosso mercado, mitigando os nossos pontos fracos e aperfeiçoando os pontos fortes, estaremos no caminho certo. A marca “Portugal” tem, efectivamente, um enorme potencial: contém atributos de simpatia, acolhimento, qualidade de vida e espírito empreendedor. É apreciada lá fora pela maioria dos investidores e gestores que nos conhecem melhor. Criar condições estruturantes cá dentro e comunicar bem lá fora são os requisitos para a economia competitiva que todos ambicionamos. Carlos Sezões

Saturday, August 24, 2013

Das cidades que temos às cidades que queremos

Os tempos que antecedem umas eleições autárquicas, com todo o colorido e animação das inevitáveis campanhas eleitorais, devem também ser espaços de debate sobre opções estratégicas de política de cidades. Em concreto, o que cada cidade quer ser nos próximos 10 anos? Qual o seu factor diferenciador, como pólo de atracção de pessoas ou como foco de inovação cultural, tecnológica e económica? Em função da ambição declarada, que novos desafios se colocam aos seus cidadãos e, nomeadamente, aos seus decisores institucionais - actores da construção e da transformação contínua das cidades? De facto, as transformações económico-sociais dos últimos 30 anos, a que todos assistimos, vieram trazer novos e complexos problemas: da degradação/ desertificação dos centros à obsolescência das antigas zonas industriais, da mobilidade à eficiência energética, da inevitável multiculturalidade aos fenómenos de exclusão, muitos são os desafios que encontramos. Primeiro, penso ser importante reflectir sobre a questão da sustentabilidade. Será que as nossas cidades são realmente sustentáveis nas suas vertentes económica (criação de riqueza e empregos), social (inclusão e vida harmoniosa das comunidades) ou ambiental (ordenamento, ocupação do espaço, energia, gestão de resíduos e poluição)? Será que os nossos investimentos em soluções de mobilidade são os adequados? Será viável que a logística de abastecimento alimentar aos centros urbanos continue assente numa rigorosa dicotomia cidade-campo (será por acaso que as estratégias de agricultura urbana regressaram ao debate público em muitos locais)? Depois, pensemos a estrutura das cidades. Uma questão premente é o desenvolvimento de estratégias de recuperação rápida dos centros históricos, que estão na situação que todos conhecemos. Há que fazê-lo com medidas objectivas e integradas, que promovam a atracção de indivíduos e famílias, nomeadamente nos segmentos etários mais jovens. O novo regime do arrendamento urbano é suficiente para inverter este cenário? Poderemos fazer uso de outros instrumentos de fiscalidade e de financiamento com o objectivo de dinamizar a inserção de imóveis devolutos no mercado imobiliário? Na importante questão do investimento empresarial (que é efectivamente, o motor do desenvolvimento, de onde se cria riqueza para tudo o resto), em que sectores queremos apostar para o nosso desenvolvimento? No turismo? Nas agro-indústrias? Em indústrias de elevado capital intelectual e tecnológico? Feita a escolha, que condições (logísticas, acessibilidades, qualidade de vida, marketing territorial) devemos criar para concretizarmos a nossa visão? Última reflexão: penso que teremos de conciliar um pensamento estratégico, a um nível “macro” com as preocupações de promoção de um “urbanismo de proximidade”. A “cultura de praça” ou “do bairro” e a dignificação do espaço de convívio público – apostando, por exemplo, em parcerias e partilha de responsabilidades com associações e instituições de solidariedade social será fundamental, até para garantir as questões de inclusão antes mencionadas. São estas algumas das reflexões estratégicas que devem, neste momento apropriado, ser efectuadas com objectividade e clareza. Para que não oiçamos os eleitores dizerem, como muitas vezes acontece, que “são todos iguais” e “nem vale a pena votar”. Não tenho dúvidas que quem, com legítimas ambições políticas, conhecer e promover o seu rumo, terá sempre marés mais favoráveis. Carlos Sezões

Sunday, July 28, 2013

Alternativas…

Todo o debate político português está, nos últimos 2 anos, centrado exclusivamente na questão da “troika” vs. “alternativa”. Em concreto, se existe ou não um caminho diferente à actual receita que o governo, a União Europeia e o FMI vêm aplicando por aqui, com mais ou menos eficácia, nos últimos tempos. Muito se tem discutido, desde a intensidade da terapêutica (que muitos alegam ser excessiva, mal “calibrada”) às motivações da mesma (há quem veja apenas um conjunto de medidas técnicas indispensáveis, há quem veja uma conspiração da Alemanha contra o sul da Europa). Nunca gostei de fundamentalismos e de respostas absolutas, do estilo “preto-e-branco” ou “certo ou errado”. Também não me revejo no fatalismo e na psicologia negativa de que está tudo perdido e nada há a fazer senão estagnar, empobrecer e esperar que melhores dias caiam do céu. Para começar, penso que existem sempre alternativas. Todos os problemas, genericamente, terão várias soluções…agora teremos sempre de avaliar se as soluções não serão piores que o problema. Um exemplo: a solução, muito mediatizada nos últimos meses, de que a saída do euro seria o remédio-santo para a nossa falta de competitividade e de crescimento económico. Se nestas variáveis existiriam impactos benéficos, a curto prazo, a mais que provável perda de riqueza real, de credibilidade e de estabilidade, tornam esta opção uma não-solução. Ficaríamos, seguramente, bem pior que hoje. Depois temos a alternativa que classifico como “paradisíaca”, aflorada frequentemente pela oposição ao governo e que se baseia na premissa de que basta vontade para voltarmos a ter o “paraíso na terra”: de forma simples, mais tempo, mais dinheiro (ou pelo menos uma delas), menos cortes e mais investimento público levariam a mais economia e mais empregos. Partindo do princípio (irrealista) de que os credores nos fariam todas as vontades, em função dos nossos lindos olhos, fica a questão de ver como mais dinheiro despejado sobre a economia seria mesmo a panaceia para todos os nossos males. Para quem não se lembra, tal foi a receita na década de 2000-2010 e o nosso crescimento foi anémico, inexistente ou mesmo negativo. A minha experiência profissional na consultoria de gestão diz-me que se não tivermos um consenso mínimo em relação ao diagnóstico, dificilmente poderemos, em conjunto, mobilizar-nos para a terapêutica – seja o nosso “paciente” uma empresa, seja, neste caso, um país. Acho que a oposição ao governo e as outras forças sociais que, legitimamente, vão fazendo ouvir a sua voz, ainda não perceberam que todo este problema não é uma equação simples de austeridade vs. crescimento, é algo bem mais complexo. Baseia-se no modelo insustentável que temos, que não pode ser pago pelos nossos actuais recursos. Baseia-se em percebermos como podemos não tirar tantos recursos financeiros aos nossos agentes económicos, cidadãos e empresas (que estão esmagados pelo garrote fiscal), mas antes deixá-los reinvestir de forma reprodutiva. Em síntese, ter austeridade no Estado, mas apostar numa agenda de crescimento para a sociedade. Se conseguirmos um consenso mínimo nesta análise, existirão, com a criatividade e inovação características dos portugueses, muitas e boas alternativas a explorar. Carlos Sezões

Thursday, April 05, 2012

Universidades do Futuro

Há umas semanas atrás, tive a oportunidade de promover em Lisboa um debate sobre as Universidades que queremos para o futuro, em Portugal. O tema do ensino superior, em si, tem sido alvo de discussões infindáveis, sempre à volta das questões da autonomia, do financiamento ou da qualidade do ensino prestado. Ora, num momento em que as universidades portuguesas têm de competir a nível europeu e mesmo global, com os recursos escassos que conhecemos, o diagnóstico foi fácil de efectuar, em termos dos desafios profundos a serem enfrentados: 1) A necessidade de uma relação mais intensa e próxima com o meio económico e social envolvente; 2) Conciliar um ensino superior de massas com a necessidade de se balizar em níveis de exigência elevados, produtores de elites empresariais, sociais e políticas; 3) Orientar os professores, simultaneamente, para os papéis de “geradores de conhecimento”, com foco na investigação, e de “promotores de aprendizagens”, com foco nos estudantes – como os devidos reflexos nos sistemas de avaliação de desempenho. 4) Internacionalizar, construir uma oferta global e atrair, de modo eficaz, bons alunos e professores. Naturalmente, fazer é sempre o mais complicado que diagnosticar. Lembro-me que, quando estudei Gestão de Empresas, na Universidade de Évora, há mais de uma década, muitas das questões que mencionei já eram factores de reflexão e preocupação. Fiquei, contudo, com a noção que existem alguns caminhos consensuais a seguir, de forma prioritária e simples. Primeiro, a maior abertura das universidades ao seu meio envolvente, integrando entidades externas (empresas, associações, fundações, instituições públicas…) nos seus processos de decisão, construindo parcerias, prestando mais serviços à sua comunidade (ex. consultoria), promovendo assim também receitas próprias. A Universidade do Porto, com a sua EGP (Escola de Gestão), foi um bom exemplo focado, com o grande envolvimento das maiores empresas da região a presença de alguns dos seus programas de formação nos rankings mundiais. Depois, reforçar a sintonia entre o conhecimento e as competências que são trabalhadas nos cursos e aquilo que é exigido nos mercados de trabalho. É essencial, mais do que nunca, mapear empregabilidade e saídas profissionais para percebermos se estamos a investir nas áreas certas. Será também útil a existência de órgãos de aconselhamento que apontem tendências e necessidades de competências para o futuro. É ainda essencial investir na aplicabilidade prática da investigação – temos excelentes resultados em termos da evolução do número de investigadores e da produção científica mas péssimos indicadores na utilização empresarial dessa mesma inovação. Por último, ter a ambição de criar centros de excelência de nível mundial, de modo a começar a exportar serviços de formação - a Universidade Católica, com o seu projecto específico na área do Direito (Global School of Law), que é um caso de sucesso reconhecido internacionalmente, com várias dezenas de estudantes de todo o mundo. Enfim, há que conciliar o papel da Universidade como centro de inovação e produção de conhecimento com a prestação de serviços de formação ao longo da vida. Haja visão e ambição e, este sector que muitos apenas vêem apenas como fonte de problemas, pode ser uma das áreas de sucesso do Portugal do século XXI. Carlos Sezões

Friday, February 10, 2012

Os Talentos que obtemos…e o que deles fazemos!

Os leitores da Bíblia conhecem, seguramente, a famosa Parábola dos Talentos (Mateus, cap. 25, vv. 14 a 30). A história relata a situação de um homem que, ao ausentar-se em viagem, chamou seus servos e entregou-lhes os seus bens monetários. Ao primeiro deu cinco talentos (moeda da época), ao segundo, dois e ao terceiro, um. Os dois primeiros negociaram os talentos recebidos e devolveram, respectivamente, dez e quatro talentos. O terceiro devolveu apenas o que havia recebido. Os que rentabilizaram seus talentos ganharam apreço e novas responsabilidades do seu senhor. Mas o que o guardou, sem dele fazer uso, foi repreendido e ficou sem o que lhe foi dado. Essa parábola trata, não só do dinheiro mas também, simbolicamente, das aptidões e potencialidades, enfim, dos “Talentos” (no sentido actual do termo) de cada um. Refere-se à responsabilidade do aproveitamento e multiplicação dos dons recebidos – seja por concessão divina ou pelo mero acaso da vida, para os menos crentes. A forma como se aproveitam os Talentos vem a propósito do cenário a que assistimos na sociedade actual - nas escolas, nas universidades e, consequentemente, nos mercados de trabalho: o pouco aproveitamento dos nossos talentos. Talento é a aptidão que um indivíduo possui de realizar algo com nível de qualidade extraordinário e, geralmente, com um grande potencial de evolução associado. Mas, efectivamente, temos todo um sistema que parece orientado para a massificação, sem ter em conta as diferenças e as capacidades de cada um. Resumidamente, consiste em fornecer conteúdos, uniformizar saberes, definir processos, formatar comportamentos e deixar andar. Em suma, investir no ensino, desprezar a aprendizagem. Quantas crianças e jovens vêm o seu potencial criativo esmagado por um sistema educacional muitas vezes inflexível e redutor? Quantos estudantes se arrastam pelas universidades em cursos que não lhes proporcionam competências ou empregabilidade? Quantos profissionais passam um inferno das 9 às 6, sem motivação ou sentido de pertença, sem noção do significado do seu trabalho ou sem aplicarem nem metade do seu potencial, seja por causa de organizações arcaicas ou por causa de chefes incompetentes? Quantos estão no desemprego, sem uma oportunidade de mostrar do que são capazes? Quantos, sem formação continuada, estagnam, com o tempo, na obsolescência técnica ou tecnológica? Tudo isto é verdadeiro e claro para qualquer um de nós. Os “sistemas” que temos podem e devem ser melhorados, olhando mais para as Pessoas menos para si próprios. Mas, mais do que culpar o “sistema” e o “contexto”, há que procurar também a responsabilidade e a vontade individual. Primeiro, cada um deve conhecer os seus “talentos”, seguramente em parte inatos, em parte adquiridos. Há quem tenha o dom “conceptual”, excelente a planear e conceber um projecto; há quem seja óptimo a comunicar, há quem tenha uma destreza técnica excepcional, há quem seja um analítico, a quem não escapa um pormenor; há quem seja óptimo a gerir uma equipa ou uma empresa, e há quem tenha uma alma de artista, que cante ou pinte como ninguém. Há que reconhecer o talento que se tem, orienta-lo e refina-lo; treinar bastante, reforçar, apostar em formação e ser determinado e persistente nas apostas que se faz. E, por último, colocar os talentos, de forma útil, ao serviço da Sociedade – por conta própria ou por conta de outrem, seja nesta imperfeita mas ainda essencial economia de mercado ou numa economia social em grande crescimento. Difícil nos tempos que correm? Sem dúvida! Mas muito mais útil e entusiasmante que ficar no sofá, resignado, a maldizer o mundo e os políticos, a esperar que caia do céu a solução que cada um deve desenhar, para si, à sua medida! (Para a Helena) Carlos Sezões

Sunday, October 09, 2011

Liderar!

Falar de Liderança está na moda e, nos mais variados contextos – económicos, empresariais, políticos e sociais – as pessoas queixam-se da falta de Líderes. Para mim, que trabalho as questões da liderança empresarial no meu dia-a-dia, este grau de exigência parece-me natural e até saudável. As chefias à moda antiga, assentes na autoridade e no carácter coercivo de um estatuto, são cada vez mais desadequadas e ineficientes. Hoje as palavras-chave não serão “ordem” e “obediência” mas sim “influência” e “mobilização”, levando as Pessoas a sentirem-se genuinamente comprometidas com projectos e objectivos. Liderar significa não estar satisfeito com o que é dado como adquirido, a assegurar os processos de rotina e olhar constantemente para o lado e ver se todos concordam connosco. Liderar significa olhar em frente, ter uma visão estratégica, de longo prazo, e mobilizar vontades para a atingir. Significa estimular o compromisso emocional e a participação de todos. Significa encarar e ponderar os riscos e tomar decisões com firmeza e sentido definido. Ao contrário do que muitos poderão supor, os traços de personalidade de quem lidera não são suficientes. É necessário ser convicto e liderar pelo exemplo que se dá. Se tivesse de eleger os 5 comportamentos essenciais de um Líder, diria o seguinte: a) Deve assumir e promover a Missão, o sentido do trabalho e do esforço de todos: em suma, que valores, que impactos, o que se espera da nossa instituição e da nossa equipa; b) Desenvolver princípios éticos para a equipa, que lhe conceda uma solidez e convicção moral partilhada por todos (que conduta, quando cooperar, quando competir, que cultura de mérito); c) Comunicar constantemente, de forma que haja uma focalização no essencial e não no acessório e que as expectativas e factores de motivação das Pessoas sejam, dentro do possível, mantidas; d) Criar e inovar sempre com um sentido de futuro: desenvolver hábitos de construção de caminhos, em que a capacidade de inovação de cada um (alimentada pela partilha de conhecimento) pode ser um pilar fundamental. e) Acompanhar as Pessoas e promover o seu desenvolvimento pessoal e profissional: uma equipa vencedora num momento pode ser uma equipa conformada e medíocre pouco tempo depois; há que manter a “chama”; Tudo isto é tão verdade no restaurante da esquina com 2 ou 3 empregados como na Sonae do engenheiro Belmiro, que já conta com 40.000 pessoas, como num qualquer ministério ou autarquia, pressionada com o rigor da troika. Nas mais diversas instituições, sejam elas empresas, associações, universidades ou entidades públicas, muitos dos problemas latentes se resolveriam com liderança eficaz. E (quero reforçar) nesta instituição chamada Portugal, importa que líderes políticos, nas suas esferas de responsabilidades, possam ser o exemplo que se lhes exige neste momento tão exigente. Carlos Sezões

Thursday, September 22, 2011

Dos egoísmos nacionais aos federalismos de ocasião

"Um político pensa nas próximas eleições; um estadista nas próximas gerações." James Clarke
Já por mais que uma vez escrevi que a Europa não tem dado uma boa imagem de si própria neste período conturbado (e simultaneamente desafiador), iniciado com a crise de 2008. O estado do sistema financeiro, o nível das dívidas soberanas, a anemia das economias e o crescimento do desemprego (ciclo quase vicioso, em que dificilmente se isola a causa e o efeito), colocam uma ameaça seríssima à coesão económica e social da Europa e à futura sobrevivência do Euro. Como em muitas outras áreas ou ocasiões na história, os egoísmos nacionais têm aqui um papel importante, no passado e no presente a que todos assistimos. Os egoísmos de quem tentou, durante décadas, angariar ao máximo fundos estruturais mas evidenciou um empenho bem menor na sua correcta aplicação. Egoísmos de quem, quando os tempos passaram a ser menos risonhos, começou a esconder as contas reais e a manipular estatísticas nacionais. E os egoísmos, mais recentes, de quem pretende defender uma supremacia nos processos de decisão europeus, agradar pontualmente aos seus eleitorados e pôr em causa o futuro do projecto europeu. A resposta está numa visão de longo prazo. Neste mundo multipolar, em que potências emergentes (China, Brasil, Índia, México ou Turquia) terão um peso cada vez maior nas decisões mundiais e em que o espaço central da economia e política mundial será cada vez mais o Pacífico em detrimento do Atlântico, importa que a Europa fale a uma só voz, ganhando a consciência que são mais as questões que unem que as que separam os Europeus. Em suma, fazer deste mercado com mais de 500 milhões de consumidores, com os melhores níveis de qualificações e de competências no mundo uma voz respeitada e influente nos grandes desafios do mundo actual (geopolítica, energia, terrorismo e segurança internacional, comércio mundial ou políticas ambientais). Se o Euro cair e a Europa voltar a ser apenas uma estrutura de cooperação económica, ninguém (nem mesmo a Alemanha) terá peso e relevância mundial. Mas esta vontade tem de ser genuína. Vimos agora emergir o que se pode chamar “federalismos de ocasião”: por palavras bonitas, dizem “por salvem-nos, paguem as nossas dívidas”…em troca tornamo-nos “mais europeus”. Obviamente, que isto é hipocrisia e é natural que seja olhado com reservas pelos países do norte da Europa. Eurobonds, governo económico ou harmonizações fiscais farão sentido quando todos estiverem dispostos a cumprir um conjunto de regras mínimas – e, a partir daí, a prosseguirem um caminho comum. A Europa deverá olhar para estes tempos de incerteza como uma oportunidade. Já tivemos gerações de verdadeiros líderes europeus, estadistas ao nível do grau de exigência dos contextos históricos: Churchill e De Gaulle na II Guerra Mundial, Adenauer, Monnet, Schuman e De Gasperi na criação das instituições europeias na década de 50 ou Delors, Mitterrand e Kohl na queda do bloco comunista e lançamento da União Europeia nas décadas de 80 e 90. Espera-se que a actual geração de líderes sejam mais que meros políticos de ocasião e que saibam ser lúcidos, corajosos e responsáveis. Será essa a diferença entre uma nova prosperidade ou uma longa decadência. Carlos Sezões

Friday, September 09, 2011

Universidade de Verão, Universidade para toda a vida…

Muitos dos que não acompanham a vida política com proximidade terão ficado surpreendidos com o painel de personalidades que, durante uma semana, passaram pela Universidade de Verão do PSD, aqui bem perto, em Castelo de Vide. Da prata da casa (ministros como Nuno Crato, Miguel Relvas e Vítor Gaspar) até ao inesperado Mário Soares, do consagrado António Barreto até políticos internacionais como Mariano Rajoy, provável futuro primeiro-ministro de Espanha. O evento já vai na 9ª edição (tive o privilégio de frequentar a primeira edição em 2003) mas penso que nunca como este ano o seu mediatismo foi tão forte. E, de facto, é surpreendente uma iniciativa de formação partidária ter este impacto. Na minha óptica, tal é merecido e assenta num modelo muito próprio com o qual o nosso sistema (excessivamente) formal de educação poderia aprender e retirar boas ideias. Primeiro, é uma formação intensiva, acessível pelo mérito individual. Cerca de 100 jovens, de elevado potencial, são seleccionados entre centenas de candidaturas e pagam para abdicar de uma semana de férias em prol de aprendizagens transversais, em áreas como a economia, administração pública, política internacional, educação ou ambiente. Em regime de internato, trabalham de manhã à noite: são duas aulas de três horas e uma conferência por dia. Avaliam-se os oradores, trabalha-se em grupo, preparam-se apresentações. Treina-se a capacidade de síntese e argumentação. Os instrumentos são muitos e variados: intranet, circuito interno de televisão, clipping de notícias, jornal diário. E eles próprios, formandos, são avaliados no final. Toda uma cultura de rigor e excelência está visível, começando no cumprimento de horários, terminando nos resultados apresentados. Das várias centenas de alunos já formados, uns são já deputados, outros presidentes de câmara, outros gestores ou dirigentes de instituições diversas. Outros prosseguiram a sua vida longe da política, mas as aprendizagens e os contactos desenvolvidos ficam para toda a vida. Duas lições podem ser retiradas daqui. Primeiro, a imagem que os partidos têm de serem meras escolas de aparelhismo, clientelismo e gestão de ambições é profundamente falsa, e como todas a generalizações, injusta. Depois, é possível com determinação, capacidade de liderança, trabalho e inovação, desenvolver projectos formativos criativos, que conciliando a dimensão cognitiva (conhecimento) com as vivências e partilhas em grupo (cooperação, comunicação, orientação para prioridades e resultados), preparem jovens para uma cidadania e uma participação cívica saudáveis. Aqui, estão a ser formados os futuros líderes que a sociedade portuguesa tanto necessita. Um exemplo que muitos outros poderão (e deverão) seguir! Carlos Sezões

Thursday, August 25, 2011

Conservadorismos…


A discussão (bizarra e absurda) à volta do tratamento ao Ministro da Economia Álvaro Santos Pereira – que prefere ser apenas “Álvaro” e dispensa os formalismos de Senhor Ministro, Excelência ou Doutor - trouxe de novo a evidência de um certo conservadorismo que teima em reinar em Portugal. Um conservadorismo bacoco e vazio, que não acrescenta nada e serve apenas para marcar distâncias e sublinhar estatutos.
É verdade que somos latinos, e como tal valorizamos a hierarquia e os sinais exteriores de poder e autoridade. Mas a cultura do “senhor doutor” e do “senhor engenheiro” é um anacronismo que em Portugal é levado ao limite do ridículo. Não é preciso ter passado pelo mundo anglo-saxónico como o Álvaro (passou pela Inglaterra e pelo Canadá) para perceber esta realidade. Quem lidar com espanhóis ou italianos (que, mesmo em contexto empresarial, rapidamente começam a tratar os interlocutores por “tu”) compreende facilmente esta especificidade portuguesa, que ocupa espaço escrito e tempo falado e esgota a paciência de muitos de nós.
Mas estes são apenas sinais menores da cultura do status e da imagem, que conservamos. A mesma cultura que permite e valoriza as dezenas de assessores de cargos públicos, as brigadas de motoristas e as frotas automóvel de alta cilindrada – afinal, quanto mais tiver, mais poderoso parecerá! Que fez com que muito boa gente, empresária no papel, acomodada na realidade, investisse mais em jipes e quintas com piscina do que em aumentar capacidade económica das suas empresas. Que permite que as coisas demorem a ser decididas e executadas, porque quem manda não pode ser incomodado. Que permite que certas profissões (ex. os juízes) tenham um estatuto social que os imunizem de qualquer avaliação objectiva dos seus actos e de estarem sujeitos a uma efectiva cultura de mérito e resultados – prejudicando os bons e protegendo os maus. Acreditem que os chamados “direitos adquiridos” que estão em discussão de norte a sul de Portugal, em diversos contextos, não são apenas dinheiro em jogo: são estatuto e poder. É a cultura do “Conservar”, não do “Realizar”.
Poder-se-á dizer que em Portugal ainda vinga o “diz-me o que tens e como és tratado, dir-te-ei quem és”. Bem, talvez tenhamos de mudar…Talvez o “ser” e o “fazer” tenham de ganhar protagonismo nas sempre inevitáveis percepções sociais. Talvez o que produzimos de valor para a sociedade – como indivíduos, como profissionais, como gestores – deva ser encarado como a chave da consideração social que cada um merece (o respeito, esse deve ser sempre o mesmo).
Enfim, tudo isto parecerá secundário num país que vive um dia de cada vez para cumprir o inevitável memorando da troika…mas talvez uma nova mentalidade, mais aberta e menos conservadora, ajude a que nunca mais precisemos de troikas impostas no futuro!

Carlos Sezões

Thursday, August 11, 2011

Empreendedorismo simplificado e desmistificado


Não existe, nos últimos 20 anos, governo em Portugal que não tenha apregoado a sua devoção ao empreendedorismo – fosse num programa eleitoral, num qualquer discurso parlamentar de ministro ou inauguração de secretário de estado. Compreende-se…o conceito é simpático e “modernaço” e muito dado a frases bonitas. Bem, é justo constatar que faziam-no, geralmente, com a mesma autenticidade de um jogador brasileiro acabado de chegar à Portela a declarar que é benfiquista desde pequenino! E pouco se saía das intenções e das generalidades…
Este governo ainda tem um historial curto demais para balanços ou elogios mas, neste campo concreto, merece pelo menos uma palavra de apreço inicial: foi o primeiro a criar uma secretaria de Estado da Competitividade, do Empreendedorismo e da Inovação e a ter assim uma visão integrada desta realidade. Efectivamente, é necessária que a investigação científica e a consequente inovação esteja ao serviço da economia real e não apenas a ocupar o tempo e o orçamento da vida universitária. E é necessário que a competitividade da economia portuguesa esteja assente na inovação e não nos baixos custos/ salários. Vista a parte estratégica, falta ver a capacidade de execução, até porque o conceito é complexo.
“Empreendedorismo” não é apenas o trajecto de alguém a criar o seu próprio negócio, seja ele o café da esquina ou a empresa tecnológica que irá inventar o próximo Google. É toda uma mentalidade, uma atitude e espírito orientado para inovar – por conta própria ou (porque não?) por conta de outrem. É olhar e ver soluções onde outros vêem apenas ameaças ou problemas. É descortinar antes dos outros uma oportunidade no mercado e conceber formas criativas de a aproveitar – com novos produtos, novos processos, novas tecnologias ou novos modelos de gestão.
Temos 3 obstáculos consideráveis em Portugal: a saber, o estigma cultural, a falta de competências de planeamento/ gestão e o financiamento.
Os dois primeiros resolvem-se, essencialmente com a educação de base, a formação e a promoção social do empreendedor. É preciso, desde cedo, a promoção da iniciativa, das competências de planeamento, gestão de projectos, liderança e análise e gestão do risco. Enfatizar que tentar, errar, falhar e tentar novamente é normal e saudável – temos de nos tornar uma sociedade tolerante ao erro! Mas também garantir que os projectos empreendedores serão sustentáveis e reduzir a sua mortalidade. Depois, o financiamento das boas ideias necessita de “capital semente” - financiamento mais orientado à fase inicial do projecto, como a pesquisa, análise de mercado, desenvolvimento do “produto”. Não deve ser apenas o Estado com os seus subsídios ou o seu capital de risco (Ex. o Finicia e outros programas similares) a constar do menu de opções. A criação de fundos universitários desta natureza e um enquadramento jurídico favorável dos chamados business angels – investidores, com uma boa rede de contactos e experiência consolidada em alguns sectores de negócio – são áreas a explorar.
O empreendedorismo não será a cura de todos os males da economia portuguesa. Mas, numa economia global, a funcionar em rede, o papel de pequenas e médias empresas, inovadoras e flexíveis, resultantes do esforço criativo dos empreendedores é cada vez mais relevante. Há que favorecer o seu nascimento e a sua multiplicação!

Carlos Sezões

Thursday, July 28, 2011

Resiliência: a palavra-chave


Olhemos à nossa volta, para os nossos desafios, sejam eles pessoais, profissionais, ou outros…que observamos? Mudanças constantes a um ritmo alucinante, elevada pressão para resultados no curto-prazo, inovação acelerada, alterações de rumo, cada vez maior dificuldade de prever o futuro. Sentimos isto nas nossas vidas bem como no seio da nossa sociedade e do nosso país. Que fazer? Entrar em pânico, em depressão ou ceder a um esgotamento físico ou psicológico não são hipóteses a encarar. A palavra-chave dos tempos actuais é, sem dúvida, a Resiliência.
Mas em que consiste afinal a Resiliência? Como é sabido no meio da psicologia e da gestão recursos humanos, é um termo “roubado” à Física (onde é usado para caracterizar os materiais) para avaliar a capacidade dos indivíduos resistirem à pressão e ao choque, ao impacto das adversidades e retomarem rapidamente a postura inicial. Quem se sente excessivamente pressionado por uma meta profissional aparentemente inatingível, pela atitude e pressão de um chefe, por um ambiente hostil no local de trabalho, pela cada vez maior dificuldade em gerir o orçamento familiar pagar as contas no final do mês, ou por conflitos interpessoais, sente uma pressão constante e desgastante. Quem acaba de perder um emprego ou sofre um trauma pessoal, tem um choque com um impacto fortíssimo. O seu grau de resiliência determinará a sua capacidade de resposta.
Não querendo fazer deste artigo uma aula de psicologia, adianto um pouco do que as neurociências nos dizem e de como este “palavrão” pode, efectivamente, significar algo para as nossas vidas.
Para começar, a resiliência é uma capacidade (ou competência) passível de aperfeiçoamento. Assenta em 3 fases: a redução da vulnerabilidade inicial, a resistência ao impacto dos eventos e a capacidade de reconstruir rapidamente uma resposta e uma atitude positiva. De facto, somos mais afectados pelo choque quando não estamos preparados. Por exemplo, o conhecimento mais aprofundado da realidade, a consciência das questões que dependem de nós e daquelas que não podemos mudar, dá-nos a serenidade para não nos perdermos no “turbilhão”. A racionalização dos eventos sucedidos (achar um sentido para o que aconteceu) e um bom nível auto-análise permitirão evitar uma reacção negativa em cadeia e um “efeito de submersão”, que mergulhe o indivíduo na descrença. Para potenciar um rápido “ponto de inversão” e uma efectiva capacidade de reconstrução, ter-se-á de focar o sentido de missão, de propósito, e da razão de ser dos eventuais sacrifícios e fazer uso da todo o potencial de criatividade e inovação.
Pessoas, Organizações ou Sociedades resilientes evidenciam:
- auto-conhecimento, auto-confiança e visão de futuro;
- orientação/ aceitação da mudança e fácil adaptabilidade;
- baixos níveis de ansiedade e noção das prioridades;
- elevados níveis de maturidade emocional, criatividade e inovação;
- orientação a valores e sentido de Comunidade.
Escusado será dizer, em jeito de conclusão, que a sociedade portuguesa precisa, urgentemente, de ganhar Resiliência. Precisa de ganhar auto-consciência do seu estado, das suas forças e fraquezas, necessidades e potencialidades. Deverá compreender com clareza o que é essencial e o que é acessório, neste momento difícil. E, não menos importante, perceber qual o objectivo, qual a “luz ao fundo do túnel” e de como está nas suas mãos alcança-la. A Resiliência ancorada num forte sentimento de esperança será o ingrediente essencial da nossa vida colectiva.

Thursday, June 16, 2011

No Jobs for the Boys? Sim, agora é mesmo a sério!


Os cerca de 60% de eleitores que fizeram uso do seu direito cívico, deram uma maioria clara e confortável ao PSD para, com o CDS, promover a mudança política, social e económica do País. Relevo estas 3 áreas para enfatizar que, de facto, a mudança será profunda e completa. Depois de uma campanha eleitoral em que abundou a demagogia, o populismo, a vitimização e o ajuste de contas, teremos agora de trabalhar para restauramos o mínimo de viabilidade financeira como Estado soberano, que ainda tentamos ser.
Nestas épocas, com mais ênfase desde que Guterres usou a célebre expressão dos “jobs” e dos “boys” em 1995, é usual aparecer na agenda diária a polémica da substituição das pessoas do partido A (que perdeu) pelo partido B (que ganhou), numa cascata de nomeações nacional – regional – local.
Tudo isto, convém desde já clarificar, é cultural, justifica-se em parte pelo nosso carácter latino, e vê-se também em países como a Espanha, Itália ou França. Somos uma sociedade dita “orientada ao colectivo”, ao sentimento de grupo, ao laço de pertença e pouco dada a orientar as nossas decisões ao individuo, ao mérito e aos resultados. É vulgar o pensamento de “se este é um dos nossos, vamos ajudá-lo e colocá-lo naquela função”…até pelos “serviços que prestou ao partido!”.
Se isto é explicável não quer dizer que seja tolerável e aceitável. Direi mesmo que é totalmente impraticável no futuro, se queremos de facto evoluir para uma sociedade transparente, focalizada em resultados e em que o mérito seja o único factor de decisão de nomeações políticas.
Não sou um idílico que defenda a absoluta inexistência de cargos de confiança política e algumas posições de assessoria e trabalho político, úteis para que o que é definido na estratégia tenha impacto real na execução. Mas, como sabemos, em Portugal passámos “do 8 para o 80” (em que, nos últimos 35 anos, ninguém é inocente), com autênticas tribos partidárias que preenchem cargos políticos e técnicos ao sabor das marés eleitorais.
Defendo uma maior profissionalização da vida política e daquilo que considero serviço e gestão da coisa pública. Se queremos ter uma administração pública eficaz, que faça mais com menos, não podemos estar a alimentar clientelas partidárias. Utilizando uma expressão que ouvi há meses, diria que é necessário que os partidos comecem a “descolonizar o Estado”. Cargos de execução técnica não devem ser substituídos apenas pela questão do cartão partidário. As avenças e assessorias, as nomeações para empresas publicas e semi-publicas e até para fundações devem também deixar de lado o compadrio partidário.
Ajudaria bastante se a nossa Administração Pública tivesse um grau de transparência similar à dos EUA onde, no começo de cada ciclo governativo, sabe-se, a priori, que vagam um conjunto definido de cargos de nomeação directa do Presidente. Em Portugal, como não há números objectivos e os processos de nomeação aparecem avulsos nas últimas páginas dos Diário da República, temos tido os excessos que todos conhecemos.
O PSD assumiu este compromisso! Portanto, acredito, sem qualquer ingenuidade, que desta vez é a sério: não haverão mais jobs habituais para os boys do costume. Por uma questão ética, de princípios (moralizar a vida política e pública) e por uma questão racional e material (menos estruturas, menos recursos, mais resultados). Penso que são razões suficientes!

Carlos Sezões

Thursday, June 02, 2011

Do medo à coragem de mudar


A campanha eleitoral que está prestes a terminar foi dominada por duas grandes ideias: uma que propõe a mesma receita que levou o país à falência e outra que devemos mudar muito da nossa forma de viver em sociedade. Mudar custa! É uma verdade incontornável! Temos, efectivamente, uma tendência para mantermos uma convicta “zona de conforto”, baseada em mantermos o que sempre tivemos, fazermos como sempre fizemos e olhar com desconfiança quem se atreve a sugerir o contrário. É por isso que, no momento em que escrevo, as sondagens continuam a mostrar apenas uma ligeira vantagem entre quem assume o desejo de mudar e quem tem ainda medo de mudar.
Mas, na minha óptica, esta é a eleição em que as opções estão mais claras que nunca, em termos da necessidade de mudança e de quem merece ganhar e quem merece perder.
O diagnóstico já está feito e o retrato da herança é reconhecido por todos: um défice recorde nas contas públicas, uma dívida brutal que demorará décadas a pagar, um desemprego de dimensões trágicas e mais uma recessão na economia portuguesa, quando todas as outras economias já começaram a crescer.
Esta descrição deveria bastar para elucidar qualquer português sobre quem não merece continuar a governar Portugal – refiro-me naturalmente a Sócrates e ao PS.
Mas podemos ir mais longe e falar sobre quem merece e porquê.
Pedro Passos Coelho chegou à liderança do PSD há pouco mais de um ano. É um político invulgar. Todos os que, como eu, já tiveram a oportunidade de o conhecer pessoalmente, podem atestar a sua seriedade, o seu sentido ético e o seu bom senso para distinguir o que fundamental do que é acessório. Não está para ilusionismos ou para o tacticismo mediático do dia-a-dia. Sobre o seu carácter basta um episódio emblemático: quando saiu da Assembleia (com 35 anos), renunciou à reforma vitalícia a que tinha direito como deputado, tendo sido o único a fazê-lo nas últimas décadas.
É uma pessoa altamente preparada, conhecendo bem os males deste País, suas causas e respectivas terapias. Pedro Passos Coelho tem um projecto! Tem um conjunto de opções definidas, baseadas numa visão moderna do Estado e da Sociedade, que coloca as Pessoas no centro da Política e lhes dá poder de decisão e uma cultura de exigência – na Economia, na Justiça, na Educação, na Saúde…. Que coloca as capacidades de inovação dos Portugueses como grande aposta desta geração. Que nos diz, muito simplesmente: vamos criar em Portugal, um ambiente seguro, saudável e competitivo que nos dê liberdade e responsabilidade, para que possamos ter os resultados que ambicionamos.
É ousado? Certamente! Mas não é mais do que muitos países da Europa fizeram com sucesso nos últimos 15 ou 20 anos, enquanto nós, em Portugal, resolvemos continuar a empobrecer à sombra de um Estado arcaico, ineficaz e endividado.
Dia 5 de Junho será decisivo. O medo deve ser superado e dar lugar à coragem de mudar, até porque as ilusões vendidas pelo poder actual não são mais que fogo-de-artifício, que acabará inevitavelmente na noite eleitoral.
Ou aprendemos com os erros do passado e começamos a remover os bloqueios ao desenvolvimento de Portugal ou ficamos um rectângulo ingovernável, num canto da Europa. Para os que agitam fantasmas sobre a mudança, apenas respondo: quando se sabe para onde se vai e como se vai, com uma visão sólida de futuro, a mudança vale sempre a pena!

Friday, April 29, 2011

Falemos de Talento…


Nos últimos 15 anos, as questões da formação, das qualificações e do conhecimento, estiveram na boca dos responsáveis políticos. Guterres tinha a paixão pela Educação e, mais tarde, pela chamada Estratégia de Lisboa, Sócrates alimentava uma fé inabalável nas Novas Oportunidades e no Plano Tecnológico (coma aposta para a chamada sociedade do conhecimento). Os conceitos inerentes ao desenvolvimento humano estiveram, pois, na linha da frente, infelizmente sem grande objectividade e sem um diagnóstico claro. Sem entrar nos meandros de todas as iniciativas, algo sobressai à vista: a dificuldade de apresentar, de modo objectivo, os benefícios concretos que valorizaram as Pessoas e a sua capacidade de realização. Dito de outra, forma, a dificuldade em demonstrar o impacto e os resultados de tudo o que se fez.
A preocupação é contudo, legítima e meritória. A palavra-chave hoje, a nível mundial, é o designado Talento. Sem preocupações de rigor académico, diria que Talento é a aptidão que um indivíduo possui de realizar determinada tarefa ou processo com nível de eficiência e eficácia extraordinário, bastante acima da média e, geralmente, com um bom potencial de evolução associado. Estas características, em contexto profissional, poderão partir de traços de personalidade, aptidões inatas, preferências e gostos enraizados ou competências adquiridas - pouco importa a origem. E, neste contexto, há que ter uma “visão inclusiva”. Não devemos olhar para a realidade “a preto e branco”, segmentando os que têm e os que não têm talento. Antes devemos ter o discernimento de identificar diferentes escalas e diferentes graus de talento em todas as pessoas. Uns serão óptimos a planear e a organizar, outras a gerar ideias, outras vocacionados para os pormenores e a destreza técnica, outros para comunicar e gerir relações de confiança.
O Talento pode e de deve ser aperfeiçoado nos momentos-chave (educação de base, formação académica, desenvolvimento ao longo da vida e gestão de recursos humanos nas organizações). Existe hoje uma preocupação que designaria como consensual: de que modo os sistemas de educação e formação estão efectivamente orientados para os seus destinatários. Numa sociedade em rede, complexa, devemos ter uma visão alargada Família – Escola – Academia - Comunidade. As aprendizagens não podem ser desenvolvidas apenas através de “ensino formal”, baseado em metodologias tradicionais, mas também em “vivências activas”. Deve-se conseguir o compromisso entre conhecimento geral, investigação, inovação e as exigências dos mercados de trabalho. Existirá, ainda, a necessidade de complementar competências “do saber” com competências do “saber fazer” e do “saber estar”. Não se pode ignorar que competências como Liderança, Visão Estratégica, Resiliência, Gestão da Mudança e Criatividade são essenciais para a realização e o sucesso profissionais. Na vida profissional, as organizações (empresas e outras) devem criar condições para o crescimento de cada indivíduo: a autonomia progressiva, a aprendizagem constante, a liberdade para criar e inovar, o mérito e a orientação para os resultados.
Tudo isto será mais relevante que uma dezena de programas governamentais centralizados, pouco práticos e dispendiosos.

Friday, April 15, 2011

Das cidades imaginadas às cidades planeadas


Na sua obra-prima “As Cidades Invisíveis”, publicada em 1972, Italo Calvino expõe um conjunto de pequenas histórias a partir de um contexto ficcionado: Marco Polo descreve ao imperador mongol Kublai Khan as cidades que visitara, no decurso das suas longas viagens. O desejo do imperador é montar o império perfeito a partir dos relatos que ouve do seu jovem amigo e emissário. São mais de 50 cidades, por vezes absurdas e metafóricas, lugares imaginários, curiosamente sempre com nomes de mulher. As descrições são curtas, agrupadas por temas: as cidades e a memória, as cidades e o céu, entre outros. Estas cidades fantásticas, perdidas num espaço temporal vasto (cruzando ambientes orientais das Mil e Uma Noites com ambientes ocidentalizados, com tráfego automóvel e arranha-céus), têm todas elas uma característica única, uma marca que as distingue, que as torna atractivas e lhe confere personalidade. O resultado é uma obra extraordinária e dificilmente definível.
Lembrei-me desta obra a propósito do cada vez mais actual debate sobre as políticas de cidades. Acho que já não oferece discussão a necessidade de uma cidade apostar na sua missão, nos seus factores de atracção e diferenciação. É conhecido o conceito de “cidade criativa”, desenvolvido por Charles Landry, (consultor britânico), e Richard Florida (professor norte-americano da Carnagie Mellon). A premissa das chamadas “cidades criativas” é simples: cidades com elevada capacidade de atracção de indivíduos qualificados, que apostem em indústrias e sectores criativos (nas áreas das tecnologias de informação e comunicação, da ciência e da investigação científica, da cultura, das artes, do design, da educação, entre outros) terão maior solidez em termos de desenvolvimento e qualidade de vida. Ambientes tolerantes, propícios à diversidade e à multiculturalidade e ambientes dinâmicos, com uma boa oferta em termos culturais e de lazer, atraem os segmentos mais jovens e criativos, que produzem inovação e criam valor. Depois, desenrola-se o efeito dominó: criam-se redes de empresas, atraem-se mais pessoas, reanimam-se os centros históricos, alavanca-se o turismo e uma cidade dita “normal” torna-se uma cidade excepcional.
Será que as cidades alentejanas, com as suas imensas potencialidades, poderiam começar a pensar nisto? Com uma riqueza arquitectónica ímpar, com uma qualidade de vida ainda acima da média, porque não apostam nestes factores diferenciadores? Gostaria de ver nas cidades alentejanas ambientes vibrantes – praças e ruas cheias de gente, as principais ruas a fervilharem de restaurantes, cafés, esplanadas, bares e lojas de produtos locais, frequentadas por milhares de turistas, como muitas cidades espanholas e italianas que conheço, às quais nada ficamos a dever. Gostaria de ver mais centros culturais e galerias de arte. Gostaria que existissem infra-estruturas de apoio a grandes eventos empresariais, como bons centros de congressos, eventos estes que se tornariam uma excelente fonte de receitas para a região. É uma utopia? Não, não é…para isto apenas é necessária uma visão de longo prazo, a mobilização de esforços, inteligência no marketing territorial e vontade política!
Poderemos, pois, ter aqui no Alentejo “cidades imaginadas” que, com planeamento e estratégia, se convertam em cidades únicas e atractivas, com qualidade de vida potencial de crescimento social e cultural? Acredito convictamente que sim!

Carlos Sezões

Friday, April 01, 2011

Preparem-se…não vai ser fácil…


Ao contrário de algumas reacções (legítimas) de muita gente, não acolhi a notícia de demissão do governo com alegria e fogo-de-artifício. Independentemente da avaliação que se faça do trabalho deste executivo e do respectivo primeiro-ministro (muito má, na minha óptica), a questão é que, no actual contexto económico, financeiro e social, ter de mudar um governo e ir para eleições, é sintomático do nível a que chegou a nossa vida política: o grau zero, caracterizado pelo ódio e pela crispação extrema no relacionamento entre os agentes políticos e a total incapacidade de diálogo e de geração de qualquer consenso mínimo.
Numa democracia adulta e madura, o estado dramático em que estamos teria já originado um governo de base alargado (dito de salvação nacional) em que as diferenças ideológicas e programáticas seriam, por um tempo, postas de parte em prol de um plano de emergência em que o País, em uníssono, se comprometesse com objectivos para os próximos dois anos.
Utopia? Não, não é….um pouco por toda e Europa (ver Espanha aqui ao lado) é assim que se têm gerido estes tempos difíceis e se têm preparado as bases para o futuro. Pelos vistos, passados quase 37 anos desde que implantámos a nossa democracia, ainda estamos na fase da adolescência político-partidária…e vamos pagar por isso.
Concordo que a provocação arrogante e desastrada do governo com a apresentação do PEC 4 não deu ao PSD outra opção que não fosse esta. De facto, não existiam já condições mínimas para segurar um governo que, para além do total desrespeito institucional (com o Presidente da República, com a Assembleia, com a Oposição...) nas questões mais formais, não encontrava melhores ideias para reduzir o défice que cortar nas pensões de 180 ou 200 euros. Foi a gota de água.
E agora? Bem, vamos para uma campanha eleitoral em que, receio, a demagogia, o populismo, a vitimização e o ajuste de contas serão o pão nosso de cada dia.
Será pena. Até porque será uma perda de tempo. Os nossos parceiros europeus, o FMI, os nossos credores e as agências de rating, que (bem ou mal) nos avaliam, serão insensíveis aos nossos psico-dramas mesquinhos. O que quererão saber é o que faremos agora, para restauramos o mínimo de viabilidade financeira como Estado soberano, que ainda tentamos ser. Depois seria então interessante perceber que estratégias teremos para o futuro – na competitividade, no emprego, no modelo de Estado, na educação e na formação ao longo da vida. Sim, porque serão estas questões que nos permitirão olhar para Portugal num prazo de 10 a 15 anos e ver alguma saída, alguma visão de esperança.
Por isso, na minha óptica, a primeira coisa que qualquer eleitor português deverá fazer é riscar das suas opções de voto quem apresente um discurso facilidade a curto prazo e que não saiba para onde quer ir no longo prazo. Portugal já pagou o suficiente por esta constante falta de “trabalho de casa”. Portanto, preparem-se…não vai ser fácil…


Carlos Sezões

Thursday, March 17, 2011

Educação: sabemos para onde vamos?


Se queremos agir sobre uma realidade, devemos começar por compreender essa mesma realidade, sem preconceitos ou mistificações. O mundo mudou bastante nos últimos 20 – 30 anos para que tenhamos, em determinadas matérias, uma visão fundamentalista e avessa a qualquer mudança. A Educação é uma dessas áreas.
Não é frase feita, é mesmo a minha convicção: a Educação é a base de qualquer sociedade. Em Portugal, foi objecto de um enorme esforço de investimento e desenvolvimento nos últimos 35 anos, tendo em conta o desafio quantitativo de massificar e democratizar o acesso à escolaridade. Olhando para a oferta educacional e para as taxas de cobertura dos vários graus de ensino, esse desafio foi razoavelmente enfrentado e vencido.
Neste momento, na era da globalização e do conhecimento, o desafio é outro, de natureza qualitativa: dotar crianças e jovens de capacidades (pessoais e sociais) que lhe permitam uma saudável inserção na sociedade e aprendizagens e competências para enfrentarem os desafios da empregabilidade deste século XXI.
Como tal, parece-me essencial equacionarmos ou repensarmos algumas questões críticas para os resultados que desejamos: os modelos de ensino/ aprendizagem, os conteúdos e as metodologias pedagógicas, os modelos de gestão escolar, a responsabilidade da família e da comunidade envolvente.
Infelizmente, como cidadão relativamente atento a este tema, vejo que em Portugal se gosta mais de discutir o acessório e se perde a noção do que é essencial. O debate político amplificado pela comunicação social foca-se em temas como as carreiras, as remunerações e as avaliações de professores ou no encerramento da escola A ou da escola B; ora se aborda o (complicadíssimo) sistema de colocação de professores ou o aparente facilitismo dos exames que nos leva a questionar se não estaremos a trabalhar para as estatísticas em vez de nos focarmos em resultados genuínos e concretos.
Por favor, haja o bom senso de nos centrarmos no que é essencial. Haja o bom senso que darmos tempo a que cada reforma ou medida concreta tenha o seu tempo de provar resultados e não façamos “revoluções educativas” de 2 em 2 anos, ao sabor das preferências de cada ministro. Façamos exercícios de cenários para perspectivarmos onde queremos estar daqui a 10 anos, sempre com atenção à cada vez mais acelerada evolução social, cultural e tecnológica.
Olhando para a realidade nacional, como não especialista neste campo, atrevo-me a deixar aqui algumas linhas e sugestões de melhoria:
• Definição rigorosa de metas de aprendizagem – sempre revistas regularmente com vista a aferir a sua adequação às novas exigências;
• Acabar com a estrutura hiper-centralizadora do Ministério da Educação, dando cada vez mais autonomia às escolas para tomarem as suas decisões;
• Envolvimento intenso dos agentes locais (autarquias, associações, empresas) nas estratégias educativas;
• Autonomia e responsabilização em termos de resultados;
• Maior monitorização/ acompanhamento dos estudantes (combatendo o insucesso escolar e medindo sucessos futuros);
• Passar de um paradigma de avaliação de professores para um modelo avaliação da escola e dos resultados;
• Melhor orientação vocacional/ profissional;
• Interligar políticas de família com política de educação – para que a escola não tenha a missão pesada e solitária de garantir tudo o que concerne ao desenvolvimento de qualquer criança ou jovem.
São apenas ideias soltas, que aqui ficam como contributo.

Carlos Sezões

Thursday, March 03, 2011

O Magrebe aqui à porta


Os recentes acontecimentos na Tunísia, no Egipto e na Líbia trouxeram para dentro dos lares europeus, via televisão, toda uma região do mundo aparentemente esquecida, apesar de estar aqui à nossa porta: o denominado Magrebe, região do norte de África que ocupa toda a margem sul do Mediterrâneo, com as suas numerosas sociedades jovens, ávidas de liberdade, democracia, empregos e qualidade de vida.
O momento e a velocidade com que tudo sucedeu são impressionantes. Regimes aparentemente sólidos, governados com mão de ferro, começaram a cair como castelos de cartas. Quem assistiu à queda do Muro de Berlim e dos regimes totalitários da Europa de Leste em 1989-90, não pode deixar de recordar as semelhanças entre estes dois autênticos terramotos históricos.
Para a Europa, a evolução desta região é fundamental. Os recursos energéticos e as matérias-primas aí existentes, as oportunidades de investimento (actuais e futuras) e, principalmente, a gestão da imigração daí originária são variáveis vitais para a geoestratégia europeia.
Na encruzilhada actual, há quem anteveja cenários optimistas e pessimistas. Quem antecipe um quadro mais negro, verá aqui a transição de regimes autoritários (mas simpáticos para o ocidente) para regimes totalitários extremistas, de carácter religioso, no pior exemplo do Irão. Há quem veja, pelo contrário, a oportunidade de emergirem sociedades livres e democracias genuínas e sólidas, com alguma semelhança à Turquia ou às monarquias moderadas da Jordânia e de Marrocos.
Existem esperanças fundadas para este último cenário. Para começar, as revoltas populares foram despoletadas por grupos pouco estruturados, essencialmente constituídos por jovens e os partidos ditos religiosos desempenharam papéis secundários no evoluir das situações. Tem sido referido na comunicação social a importância de blogs e redes sociais (Facebook e Twitter) na disseminação das mensagens e em congregar todos os intervenientes numa causa comum. Tal só foi possível pela existência de segmentos da sociedade minimamente educados e qualificados.
Contudo, a construção de uma democracia exige mais que multidões eufóricas na rua a celebrar a sua liberdade. Pressupõe que as novas constituições e leis fundamentais e os novos sistemas políticos a emergirem garantam o respeito pelos direitos humanos, liberdades e garantias mais elementares (e aqui incluo, a igualdade entre sexos e o direito universal à educação). Pressupõe ainda a clara separação entre religião do Estado, sempre tão melindrosa em países muçulmanos. Exige, por último, instituições que garantam separação dos poderes legislativo, executivo e judicial e que garantam economias de mercado minimamente transparentes, sem pressão das oligarquias antes dominantes.
Estou convencido que o processo será longo e alguns casos tortuoso. E que a fronteira entre o renascimento e o caos poderá ser ténue. Se há uma zona do globo que a (incipiente) política externa europeia deverá funcionar de uma forma sólida e a uma só voz, será aqui.

Carlos Sezões

Thursday, February 17, 2011

Um Turismo (realmente) competitivo no Alentejo


Na conferência “Alqueva: os próximos 10 anos”, realizada em Reguengos de Monsaraz no passado fim-de-semana, pela Associação Alentejo de Excelência, foi sublinhada a importância que o turismo tem no âmbito deste grande empreendimento. Os projectos em curso, pela sua ambição e posicionamento de elevadíssima qualidade, poderão efectivamente ser uma âncora para o desenvolvimento daquela zona, até há poucos anos desfavorecida pela geografia. Transpondo de uma óptica “micro”, para uma análise mais “macro”, ao nível do Alentejo, é importante percebermos como o carácter estratégico do turismo merece a devida atenção dos decisores políticos ao nível nacional, regional ou local.
Primeiro ponto: as características únicas e as enormes potencialidades turísticas do Alentejo estão à vista e são conhecidas por todos. O clima, a monumentalidade de vilas e cidades (exemplo máximo: Évora, Património Mundial), a paisagem natural das planícies, as belezas da faixa litoral e a gastronomia são excelentes focos de atracção para a maioria dos segmentos turísticos.
Diga-se, em abono da verdade, que os últimos números sobre a evolução do turismo na região são animadores. O Alentejo registou, em 2010, um crescimento de 6,7% nas dormidas para um total de 1,179 milhões, face às 1,104 milhões de 2009, de acordo com os dados do INE, divulgados Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo. Este terá sido, pois, o melhor ano turístico de sempre.
Convém, contudo, não descansar sobre os primeiros sucessos uma vez que muito há ainda a fazer, para conseguirmos atingir a escala e os níveis de qualidade desejados. Analisando as questões de um ponto de vista de marketing, há que ter uma noção das reais necessidades e expectativas dos públicos-alvo nacionais e internacionais e conceber “produtos turísticos” de qualidade superior. Ora o produto-base, já existe, efectivamente – o Alentejo real, o território com as características acima descritas. Poderemos depois descortinar alguns produtos finais, para os quais o Alentejo detém vantagens competitivas únicas: desde as chamadas city short-breaks (ex. fins de semana em Évora) passando pelo turismo cultural, desde o tradicional golfe ao turismo natureza (com taxas de crescimento elevadas ano em termos internacionais), o turismo de saúde e bem-estar, o turismo náutico (com condições únicas no Alqueva) e o touring (circuitos turísticos) cultural e paisagístico. Cruzando estes produtos com os vários “Alentejos” geográficos, teremos aqui a possibilidade de criar novos pólos com elevados níveis de atractividade.
Um factor será, na minha óptica, decisivo para mudar o paradigma do visitante (e da respectiva receita média): a oferta cultural, recreativa e de lazer. É necessário que agentes privados e públicos se esforcem por potenciar espectáculos (música, teatro, dança, multimédia), eventos desportivos, feiras, exposições temáticas, enfim, algo que, de forma estruturada e coerente, ajude a vender a imagem da região e transforme o visitante de passagem (que fica uma ou duas noites) num visitante que permaneça (pelo menos uma semana).
Como factor crítico de sucesso, identifico ainda a necessária qualificação e formação na área, que permita capacitar em quantidade e qualidade os milhares de profissionais necessários para acolher o turismo na dimensão desejada.
Apenas a promoção destas condições prévias permitirá, a meu ver, a realização da missão turística da Região, de forma bem sucedida e sustentada – e posicionar o Alentejo como marca de excelência no turismo mundial.


Carlos Sezões

Friday, February 04, 2011

Coesão Territorial…há que pregar e praticar!


Primeiro caso: assistimos a um período de obras, previsto para 12 meses, que teve início em Maio do ano passado, na ligação ferroviária diária da CP entre Lisboa e Évora. Período imenso, com impactos fortíssimos na qualidade de vida de muitas pessoas que fazem a sua vida entre as duas cidades. O sacrifício teve uma boa causa e terá a sua recompensa? Não é assim tão evidente. O serviço para Évora sofrerá uma redução em termos de conforto e comodidade. Em vez de carruagens Intercidades rebocadas por uma máquina eléctrica, a CP optou por uma solução mais barata, com base em automotoras eléctricas. Ainda no mesmo tema ferroviário, a cidade de Beja perde os comboios directos para a capital devido aos transbordos que passarão a ser obrigatórios em Casa Branca.
Segundo caso: em todo o Alentejo, foram já anunciados, desde meados do ano transacto, os encerramentos de dezenas de escolas básicas. Se os critérios de uma racionalidade económica mínima e de eficácia pedagógica parecem razoáveis, tal já não acontece quando existem outras variáveis. Se, de facto, encontramos aqui instituições que preenchem todos os requisitos pedagógicos e que, estando localizadas em regiões isoladas, assumem uma função determinante para o desenvolvimento de pequenas comunidades rurais, talvez o caminho seguido não pareça afinal tão óbvio e consensual.
Isto leva-nos à velha discussão sobre a coesão territorial, isto é, a nossa capacidade tornar as várias regiões deste pequeno país relativamente equitativas em termos de oportunidades de desenvolvimento, reduzindo as disparidades existentes e promovendo, dentro do possível, a cooperação entre elas. Se considerarmos, no limite, que um País é apenas o conjunto das suas pessoas, podemos acantonar os 10 milhões de portugueses na faixa litoral e poupar o que se gastaria em infra-estruturas no resto do território. Mas o País é também o seu espaço e, como é hoje de bom senso concordar, a qualidade de vida e desenvolvimento sustentável de uma população aumenta com a uma visão integrada que promova os vários territórios (com os seus recursos) e os torne atractivos, essencialmente em termos de habitabilidade e empregabilidade.
É por isso que, quando leio ou ouço os casos acima mencionados fico sempre com a convicção que existe aqui uma gravíssima miopia política e estratégica. Se nos resignarmos apenas a fazer contas à demografia e à economia pública, vamos continuar a retirar os equipamentos públicos essenciais e promover o abandono de boa parte do nosso território.
Que resposta? Não há soluções mágicas, mas não é preciso muita imaginação para perceber que deveríamos muitas vezes fazer raciocínios inversos. Em concreto, pensar a nível macro, regional, e fazer apostas concretas, investindo em criar ou manter infra-estruturas básicas para a competitividade regional e para a qualidade de vida dos respectivos habitantes. Fazê-lo criando soluções inter-municipais (com a colaboração da administração central) e reduzindo muitos dos desperdícios que por aí ainda se fazem. Se continuarmos, pelo contrário, pela via do desinvestimento constante, ainda teremos no interior de Portugal o deserto que um certo ministro em tempos profetizou.

Carlos Sezões

Friday, January 14, 2011

Como financiar a democracia?


O Presidente da República promulgou, há umas semanas atrás, a nova lei do financiamento dos partidos, apesar de esta, no seu entender, incluir opções (cito) «indubitavelmente questionáveis». A redução das subvenções públicas e dos limites máximos dos gastos nas campanhas eleitorais foram imperativos a ter em conta, quer na concepção, quer na promulgação da lei em causa.
Convém, desde já, clarificar o que está em causa. Este é um debate actual na maioria dos regimes democrático e, a meu ver, deve ser conduzido tendo em vista dois objectivos essenciais: (1) assegurar que todas as forças partidárias disponham dos recursos suficientes para exercerem a sua acção política, uma vez que esta é fundamental para a estruturação da vontade política dos cidadãos e (2) garantir a máxima transparência das fontes de financiamento partidário, de modo a que os partidos desempenhem o seu papel de forma independente e livre de quaisquer constrangimentos ou influências, públicas ou privadas. Isto não é fácil de garantir, nem aqui, nem no resto do mundo. Basta lembrar-nos dos escândalos que nas últimas décadas afectaram a França, Espanha, Itália ou Alemanha.
Aqui, a questão do modelo é essencial. Em Portugal, através da lei aprovada em 2003 privilegiou-se um modelo de financiamento tendencialmente público. Revelando-se bastante oneroso para o Orçamento do Estado, tem sido justificado pelo argumento dos «custos da democracia» - no fundo, a factura que os contribuintes devem suportar com vista a diminuir a possibilidade de ocorrência de situações indesejadas, como corrupção ou clientelismo.
A presente lei, com as alterações agora em vigor, está longe da perfeição. Procurando, estabelecer limites e controlos rígidos, contém dimensões obscuras que se podem tornar perigosas: a ausência de um conceito claro de “actividade de angariação de fundos”, a possibilidade de contribuições dos candidatos, cujos rendimentos e patrimónios, como é sabido, não se encontram sujeitos à fiscalização ou o aumento das receitas que os partidos podem receber em “dinheiro vivo”.
Sinceramente, gostava que num dia futuro, fosse possível outra solução, assente num outro modelo. Acho que numa sociedade saudável, os cidadãos deveriam poder contribuir com o que desejassem, para o seu partido – assim o fizessem com transparência. Os partidos são, pela sua própria natureza, associações privadas. São grupos de pessoas que partilham as mesmas ideias e que desejam promover as suas causas e o seu modo de ver a sociedade. Transformar os partidos em “instituições públicas” dependentes deste financiamento faz com que percam a sua essência e que o espectro partidário se mantenha imóvel e sem a sempre saudável regeneração. Em suma, máxima liberdade com a máxima responsabilidade e possibilidade de escrutínio.
Enfim, como o possível é diferente do desejável, apenas espero que a transparência impere e os mecanismos de controlo funcionem. Que não continuemos a assistir, como no passado, a acórdãos do Tribunal Constitucional (com 2 ou 3 anos de atraso!) a condenarem as práticas dos partidos. E que não vejamos, continuamente nos telejornais portugueses, indícios que a falta de ética conseguiu novamente contornar a boa vontade das leis.

Carlos Sezões

Saturday, January 01, 2011

2011…para que servirá?


“O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude, o realista ajusta as velas” (William George Ward)

É verdade, 2011 está à porta. Não vou aqui entrar em banalidades sobre a enorme importância e os problemas incontornáveis que enfrentaremos no próximo ano. Todos os anos nos colocam desafios e, desde que os queiramos enfrentar com coragem e determinação, podem sempre tornar-se tempos de mudança e de sucesso nas várias dimensões das nossas vidas.
E é precisamente isso que pode marcar a diferença: a responsabilidade individual e as escolhas que fazemos. Algo que, confesso, parece estar fora de moda. De facto, no contexto de crise actual, vejo cada vez mais gente a entrar na fase da “reivindicação”. O que se pede: tudo! Desde emprego para toda a vida, saúde, educação e auto-estradas gratuitas, férias, feriados e respectivas pontes, aumentos salariais reais, enfim, a qualquer lado onde a imaginação (e o hábito das últimas décadas) nos levar. Curiosamente, ninguém explica como se pode sustentar tamanha ambição.
E aqui a racionalidade não abunda. Efectivamente, o que pode o comum cidadão pensar ou fazer quanto nas mais altas esferas politicas se revela a maior ignorância, demagogia e insensatez? Exemplos? Temos candidatos presidenciais a clamar contra os “mercados” maquiavélicos que conspiram contra nós mas ninguém explica onde é que, de forma alternativa a esses mercados, se pode ir buscar os 40 ou 50.000 milhões de euros de que necessitaremos em 2011. Como podemos continuar a pedir emprestado a 7% quando crescemos a taxas de 0,5% (ou não crescemos, como tem acontecido). Ministros e deputados clamam em defesa dos “direitos adquiridos dos trabalhadores” e do “aumento da produtividade nacional” mas ninguém explica o que se fará para defender ambas. Menos férias e diminuição do número de feriados? Aumento da idade da reforma? E, já que estão tão preocupados com os que têm emprego porque não estão de igual modo indignados com o desemprego estrutural de longa duração e, essencialmente, dos mais de 20% de jovens para quem o mercado de trabalho está fechado? A reivindicação não leva a caminho algum quando está desfasada da realidade.
Muitos dizem que o ano de 2011 será, inevitavelmente, um ano dramático em termos sociais em Portugal. Não sou muito dado a fatalismos e, como tal, estou convicto que muito poderá ser feito em termos individuais e colectivos. O Estado não pode acorrer a tudo por falta de meios e conhecimento da realidade local mas o sector social de proximidade (associações, Misericórdias, IPSS’s) pode…e muito. Contudo, a atitude dominante da sociedade e dos políticos portugueses terá de ser outra.
Se o ano de 2011 pode servir para algo mais nobre e construtivo, penso que a resposta estará numa nova atitude e num exercício de “contabilidade individual”: o que quero receber e o que estou capacitado para dar. No fundo, que atitudes, decisões e acções estão ao alcance da minha vontade e como influenciarão os resultados que vou obter ao longo do tempo, numa evidente relação causa-efeito. Seja em concretizar um novo projecto ou inovação profissional (por conta própria e criando postos de trabalho ou por conta de outrem, melhorando o que já é feito), seja em dar atenção à Comunidade em que se está envolvido (região, cidade, bairro), investir na sua própria educação, na formação e no conhecimento, seja da forma mais simples possível, promover uma boa gestão pessoal/ familiar dos recursos. À falta de melhor, que 2011 nos sirva para isto.


Carlos Sezões

Friday, December 17, 2010

O Portugal Positivo vencerá a pesada herança?


Nos tempos de crise em que estamos submersos, a expressão “Portugal Positivo” poderá parecer uma heresia ou uma divagação lunática. Mas não, caro(a) leitor(a), é apenas a descrição justa e apropriada para determinadas realidades que, se forem promovidas, acarinhadas e multiplicadas, poderão ser a chave do nosso futuro enquanto estado-nação.
Todos conhecemos o nosso retrato mais negro (e verdadeiro…e actual!): um país com défices de educação e literacia tremendos (pois, não estou eufórico com os resultados do PISA, considero-os apenas um bom indicador), com uma justiça indescritível em termos de ineficiência e morosidade, um sistema de saúde com um custo insustentável que tarda em reorganizar-se para os níveis de serviço pretendidos, com uma economia pouco competitiva e produtiva, com enormes “custos de contexto” que não atraem o investimento estrangeiro, uma administração pública que todos os “simplexes” do mundo não conseguem reformar, um território desordenado e um património urbano altamente degradado e finanças com um endividamento externo brutal, que poderá comprometer o futuro das próximas gerações…Enfim…já chega!
Mas temos um outro Portugal que passa ao lado deste cenário e, apesar de tudo, mostra as nossas competências, capacidades de inovação, de empreendedorismo e de obter resultados no exigente patamar da economia global. Exemplos? Aqui vão, de forma não estruturada….
Para começar, ressalvar aquilo que nos foi dado, sem termos qualquer trabalho. Temos um país abençoado pela geografia física (o clima, as paisagens naturais, a extensa costa marítima) e pela geografia humana (história e respectivo património, gastronomia e hospitalidade). Conheço vários gestores internacionais que se radicaram em Portugal, encantados por estes nossos “factores de atracção”.
Depois, no esforço dos últimos 35 anos, construímos condições para os nossos muitos casos de sucesso. Temos empresas conceituadas a nível mundial, muitas apenas de dimensão média, como a YDreams (tecnologia interactiva), a Critical Software (soluções de informática que asseguram o suporte a sistemas críticos), a Euronavy (tintas e revestimentos), Renova (papel doméstico) ou a Bial (farmacêutica). Temos produtos de qualidade que se afirmam nível global como o vinho, a cortiça o calçado até software de gestão. Temos estratégias emergentes e já bem sucedidas na área das energias (renováveis) e nas soluções de mobilidade eléctrica. Temos o Talento português a triunfar em exigentes palcos como a diplomacia (Barroso, Guterres), o desporto (Ronaldo, Mourinho) ou a alta finança (Borges, Horta Osório). No caso concreto dos recursos humanos, e passando para além destas celebridades, milhares de jovens profissionais, extremamente capazes e qualificados, triunfam por esse mundo fora, em Barcelona, Londres ou Nova Iorque.
A pesada herança, de que todos os governos se queixam quando chegam ao poder é estrutural e uma entropia real ao sucesso do país – a incapacidade de o Estado e a Sociedade se prepararem para os desafios deste século XXI. Mas, neste ponto, não irei gastar mais latim…todos os diagnósticos já foram feitos! Ou alteramos este “quadro geral” no prazo de 8-10 anos, ou não haverá muito mais a fazer. O “Portugal Positivo” mudar-se-á de armas e bagagens para bem longe e ficaremos apenas um país de sol, praia, resorts e empregados de mesa.

Carlos Sezões

Friday, December 03, 2010

Cavaco Silva em 2011


Ao que indicam todas as sondagens, Cavaco Silva prepara-se para, no próximo dia 23 de Janeiro de 2011, ser reeleito Presidente da República. Confesso que desde sempre senti uma grande proximidade e afinidade com este político invulgar que, nos últimos 30 anos, marcou a democracia portuguesa. O seu desempenho como primeiro-ministro é incontornável para quem queira perceber o Portugal do final do século XX e a sua reaparição como candidato presidencial, no final de 2005, foi o corolário óbvio de um trajecto pessoal de uma carreira política de qualidade ímpar.
Mas muitas pessoas, especialmente na minha geração, ainda se interrogam sobre a verdadeira natureza de Cavaco Silva e sobre as suas qualidades e razões da sua popularidade e sucesso eleitoral comprovados. De certa forma, a dúvida é compreensível…Cavaco não tem o perfil estereotipado do político que nos habituámos a ter aqui neste canto da Europa. Não tem o verbo fácil e a capacidade oratória de um Guterres ou de um Santana Lopes, não tem a imagem sobranceira e transbordante de confiança de um Soares, não terá o carisma simultaneamente magnético e inacessível de um Sá Carneiro ou de um Cunhal. Cavaco Silva tem, contudo, algo diferenciador, diria quase único: uma conjugação fortíssima de credibilidade, seriedade, sentido ético e experiência política.
Em primeiro lugar, a credibilidade que o seu legado de primeiro-ministro lhe confere é imensa. Quem comparar a forma de governar Portugal antes, durante e após Cavaco notará um estilo e um sentido de eficiência e eficácia inimitáveis. Quem assistiu àqueles 10 anos, viu uma estratégia concreta para o País, prioridades definidas, rigor na tomada de decisões e um sentido de profissionalismo na política. Independentemente de erros havidos (inevitáveis e inerentes a qualquer ser humano), Portugal saiu deste ciclo dotado de infra-estruturas, de equipamentos, de um tecido económico e de modelos de governação adequados aos desafios do mundo actual.
Depois, temos a sua seriedade e sentido ético, postos à prova inúmeras vezes nos últimos anos. Cavaco Silva nunca deixou de sublinhar aquilo que em cada momento lhe pareceu importante, fosse ou não um assunto que granjeasse mediatismo ou simpatias. Os exemplos são vários. Nas questões da competitividade da economia portuguesa, do défice e da dívida foi dos primeiros a falar, enquanto estávamos entretidos com o Euro 2004 ou outras pseudo-prioridades. Nas questões constitucionais (estatuto político dos Açores) não receou a incompreensão ou apatia dos portugueses em férias para vir à televisão alertar para a monstruosidade legislativa que aí vinha. Na questão da lei do divórcio, não receou parecer antiquado quando alertou para as suas consequências sociais, especialmente nos segmentos mais carenciados da população. Curiosamente, as principais críticas a Cavaco – distância, excessivo formalismo, gestão cuidada das palavras e dos silêncios - são apenas sintomas menores dos traços de personalidade e das competências que o tornam a escolha óbvia nestes tempos tão conturbados e incertos.
O que pode representar Cavaco em 2011? Em primeiro lugar, representará segurança, certeza e previsibilidade de actuação. Representará uma garantia do bom funcionamento das instituições e um travão eficaz contra tentações partidárias (venham donde vierem) de controlo excessivo do Estado e da nossa sociedade. Representará, por último, um testemunho e um exemplo de um homem sério que, apenas pelo seu trabalho e pelo seu mérito (sem as facilidades de berço ou de apadrinhamento tão normais em Portugal), desempenha as funções de mais alto magistrado da Nação. Nos tempos que correm, de descrédito e descrença na política, isto não é pouco!

Carlos Sezões

Thursday, November 18, 2010

NATO em Portugal…é mesmo importante?


Portugal acolherá nos próximos dias a cimeira da NATO. Bem sei que no actual cenário de crise económica e social, as questões de defesa e segurança internacional estão nos últimos lugares da lista de prioridades dos portugueses. Para muitos, parecerá um dispêndio de energia e dinheiro qualquer preocupação com estas questões por parte dos nossos políticos.
Mas…acreditem que a importância desta cimeira é maior do que aparenta! Neste mundo cada vez mais globalizado e interdependente mas, simultaneamente, mais incerto e inseguro, a existência de uma organização de defesa internacional, com capacidade militar comprovada, que agrupa a grande maioria das democracias do hemisfério norte, é uma das poucas coisas que podemos considerar certas e seguras. O novo conceito estratégico, a ser aprovado e assinado nesta reunião, vai ser importante para a Europa e os EUA decidirem o seu papel no mundo.
Em primeiro lugar, o contexto que temos. O mundo pós-guerra fria de 1989-2001, com a supremacia ocidental assente na liderança dos EUA e o período de indefinição e transição 2001-2008, marcado pela ameaça terrorista e pelo desencadear dos conflitos do Iraque e do Afeganistão, são etapas passadas. Está a emergir um mundo multipolar, balizado por grandes potências (EUA e China) e médios poderes (Brasil, Índia, Rússia, Japão, Turquia entre outros), cada qual com a sua agenda própria. A União Europeia, que exclui propositadamente da frase anterior, ainda não escolheu bem o que quer ser – e tenho dúvidas que o faça em breve por falta de liderança interna. De facto, as crises que assolam com particular gravidade as economias ocidentais assentes no modelo de estado-social, deixam poucos recursos e pouca vontade de investimento em matéria de segurança. O que é deveras preocupante. Qualquer observador atento à geoestratégia, antevê facilmente imensos focos de conflito para os próximos 25 anos. Seja por recursos (luta por matérias-primas, água ou fontes de energia), seja por razões económicas e monetárias (a liberdade do comércio mundial e conflitos em matéria cambial), por razões demográficas (migrações) ou religiosas (fundamentalismo islâmico), não esperemos um mundo muito racional, sensato e pacífico para as próximas décadas. Por uma questão de capacidade de antevisão e compromisso com as gerações futuras, não podemos simplesmente ignorar este contexto de (in)segurança apenas por que é mais confortável (e mais barato).
Na nova estratégia a sair da cimeira de Lisboa, deverá estar bem vincada a missão, o âmbito de actuação e a capacidade de resposta que deverá estar preparada para fazer face às ameaças. Em síntese, qual a deverá ser a projecção da NATO – a nível mundial, considerando que a defesa dos seus membros começa muitas vezes do outro lado do mundo a milhares de quilómetros das suas fronteiras? Qual o papel do polémico escudo anti-míssil, um instrumento-chave para a defesa da Europa e dos EUA? Avançará com ou sem a parceria com a Rússia? Qual a forma mais eficaz de abordar e responder à ameaça do terrorismo islâmico? A missão da NATO (ISAF) no Afeganistão é para manter até à pacificação total e democratização do país? Haverá compromisso e recursos para tal?
Aqui se vai evidenciar a capacidade dos actuais líderes políticos olharem para além dos seus calendários eleitorais e da pressão mais imediata das suas opiniões públicas. Como não há “omoletes sem ovos”, os países da NATO deverão começar a cumprir a obrigação de investimento de 2% do seu PIB nos orçamentos de defesa (algo cumprido apenas por cinco países). E não esperar que, sempre que há problemas, sejam os EUA a pagar a factura em dinheiro e vidas humanas…

Carlos Sezões

Friday, November 05, 2010

Cidades sustentáveis: apostar na qualidade de vida


Opinião muito pessoal: boa parte dos nossos problemas, enquanto membros desta grande comunidade chamada Portugal, reside na nossa incapacidade para uma auto-responsabilização e consequente boa gestão dos nossos espaços: conforme a escala considerada, falo das nossas cidades, vilas, aldeias, freguesias ou bairros. Tudo esperamos ser resolvido pelo sempre omnipresente (e quase sempre ineficaz) Estado central. O poder autárquico democraticamente eleito já tem cerca de 35 anos mas, não obstante as suas muitas conquistas, não conseguiu ainda garantir níveis aceitáveis de sustentabilidade, qualidade de vida, conforto e boa gestão do espaço público. Falarei em particular das cidades, como pólos de atracção de pessoas e como focos de inovação cultural, tecnológica e económica. De facto, em sociedades pós-industriais e de forte cariz urbano, novas problemáticas colocam-se a todos os seus cidadãos e políticos-decisores: da desagradação/ desertificação dos centros, à obsolescência das antigas zonas industriais, da mobilidade à eficiência energética, da inevitável multiculturalidade aos fenómenos de pobreza, exclusão e criminalidade, do (des)ordenamento urbanístico à competitividade económico-empresarial, muitos são os desafios que encontramos.
Primeiro, penso ser importante reflectir sobre a questão da sustentabilidade, numa perspectiva integrada. Será que as nossas cidades são realmente sustentáveis nas suas vertentes económica (atracção de investimento e criação de riqueza e empregos), social (inclusão e vida harmoniosa das comunidades) ou ambiental (ordenamento, ocupação do espaço, energia, gestão de resíduos e poluição)? Será que os nossos investimentos em soluções de mobilidade são os adequados? Será viável que a logística de abastecimento alimentar aos centros urbanos continue assente numa rigorosa separação cidade-campo (ainda me recordo das estratégias de agricultura urbana defendidas pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles)?
Depois, pensemos a estrutura das cidades, das suas edificações. Uma questão premente é o desenvolvimento de estratégias de recuperação rápida dos centros históricos, que estão no estado que todos conhecemos. Há que fazê-lo com medidas integradas, que promovam a atracção de indivíduos e famílias, nomeadamente nos segmentos etários mais jovens. Aqui, olhando para a realidade portuguesa, não podemos ignorar a necessidade de um novo regime do arrendamento urbano, uma vez que o de 2006 pouco ou nada tem resolvido. A existência de cerca de 400.000 fogos arrendados com contratos celebrados antes de 1990, muitos dos quais com rendas inferiores a 50 euros, é problema que exige medidas efectivas e rápidas (de preferência, que produzam efeitos antes que os edifícios em causa comecem a ruir). Há que criar condições de flexibilidade para a convergência gradual com os preços de mercado e dinamizar a inserção de imóveis devolutos no mercado imobiliário. Como é sabido, somos um país que tem mais de 500.00 imóveis abandonados com consequências inerentes em termos de estética, degradação urbana e insalubridade.
Ainda refiro a necessidade, no âmbito sócio-cultural, de estratégias de “urbanismo de proximidade”. A “cultura de praça” ou “do bairro”, com as suas especificidades, deve ser motivadora para o empenhamento dos seus cidadãos. Promover a cidadania, dignificar o espaço de convívio público, dinamizar a oferta cultural e recreativa, apostar em parcerias e partilha de tarefas com instituições de solidariedade social será fundamental, até para garantir as questões de inclusão antes mencionadas. De facto, os paradigmas do “bairro social” e do “condomínio privado” (ambos exemplos extremos, promotores da exclusão), tão ao gosto português, devem, definitivamente, dar origem a uma cultura de cidade competitiva, atractiva e…sustentável.

Carlos Sezões

Thursday, October 21, 2010

Para que serve um Partido político?


Nos tempos que correm, à medida que a economia desce ao inferno e a coesão social ameaça tornar-se um pesadelo neste País, a política, os partidos e os políticos afundam, ainda mais, o seu nível de credibilidade e prestígio. Não é necessária uma sondagem assente numa amostra com validade estatística. É quase consensual a sensação de que a Politica se encontra com uma imagem extremamente negativa, fenómeno que não é apenas português, mas uma realidade na maioria das sociedades ocidentais.
Nesta análise, podemos lançar uma pergunta (propositadamente) provocatória: afinal, para que serve hoje um partido político? Desde já, um devido esclarecimento: sou militante de um partido e, como é óbvio, nunca simpatizei com uma visão demagógica e simplista que vê os políticos como seres ambiciosos e sem escrúpulos, e os partidos como a fonte de todos os males. A realidade, fria e objectiva, é outra: os partidos são essenciais a qualquer democracia. Representam estruturas mínimas de entendimento e compromisso, sem as quais era impossível construir projectos políticos consistentes e continuados no tempo. Mas, de facto, não podem acomodar-se a serem meras estruturas imóveis, desligadas da sociedade que os rodeia, em que conjuntos de pessoas (dirigentes e militantes) aguardam o desenrolar dos sucessivos ciclos eleitorais. Pelo contrário, os partidos têm papéis importantes a desempenhar. Na minha opinião, existem 4 essenciais:
1 - Assegurar a sintonia entre a agenda do poder político e a realidade vivida e sentida pelas pessoas.
Os problemas quotidianos, que afectam a felicidade e qualidade de vida dos cidadãos passam frequentemente ao lado da agenda política. Os partidos devem estar centrados na realidade e nas Pessoas e não em jogos de curto prazo, de manutenção de poder – compete-lhes este exemplo e esta prática.
2 - Gerar ideias e projectos políticos concretos
Perante novos problemas e desafios, é preciso definir princípios políticos e propostas de acção coerentes. Há sempre a sensação que é mais do mesmo e a coragem de clarificar não abunda. Manuel Maria Carrilho, pelo qual sou insuspeito de simpatia, teve uma afirmação lúcida há umas semanas atrás: os partidos devem ser "laboratórios de ideias". De facto, só assim poderão gerar, no seio de debates internos, abertos e construtivos, as soluções mais inovadoras e eficazes para os problemas que continuamente vamos encontrando na evolução das nossas sociedades.
3 - Pugnar pela coerência entre compromissos assumidos e aquilo que é efectivamente realizado.
Os partidos devem falar verdade a priori, explicitar compromissos e, depois de eleições, democraticamente, controlar a acção política de quem está no poder. Tanto em contextos nacionais com em locais, frequentemente, nas oposições fica-se pela retórica vazia pela ausência de escrutínio e de propostas alternativas diferenciadoras.
4 - Atrair novas pessoas e novas competências para a política.
Hoje é essencial, para o sucesso e credibilidade dos Partidos, a abertura à sociedade civil. Deverão, pois, criar condições favoráveis para a atracção de pessoas com reconhecidas qualificações profissionais, oriundas de meios diversos (empresariais, académicos, etc) que, mesmo não se enquadrando na disciplina partidária, possam colaborar e enriquecer as várias propostas eleitorais.
Aqui assenta a missão de um partido. E só assim se pode garantir que a política tem credibilidade e impacto e que não é apenas um conjunto de rituais maçudos nos quais ninguém se revê.

Carlos Sezões